FONTES

A CANA-DE-AÇÚCAR PERMEANDO PELO CENTRO DE MEMÓRIA DO INSTITUTO BIOLÓGICO

S. D’Agostini*, M.M. Rebouças*, A. Batista Filho**, N. Vitiello*

*Instituto Biológico, Centro de Comunicação e Transferência do Conhecimento, Museu/Centro de Memória, Av. Cons. Rodrigues Alves, 1252, CEP 04014-002, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: dagostini@biologico.sp.gov.br
**Instituto Biológico, Diretoria Geral, São Paulo, SP, Brasil.

 

RESUMO

O presente trabalho traz o desenvolvimento da cana-de-açúcar desde os seus primórdios até os dias de hoje. Demonstra a sua importância em todo o mundo e os mais diversos benefícios que deu e dá à sociedade. Vai desde o seu doce mel até a produção de biocombustível, que hoje é um dos marcos de comercialização, agregando valor aos países que fazem desse produto um de seus elementos básicos.

PALAVRAS-CHAVE: Cana-de-açúcar, história, pragas, doenças, desenvolvimento.

 

ABSTRACT

THE SUGAR CANE PERMEATED BY CENTRO DE MEMÓRIA OF INSTITUTO BIOLÓGICO. This paper presents the development of sugar cane from its beginnings to the present days. Demonstrates its importance in the world and the most several benefits that gave an gives to the society. It goes from your sweet honey to the production of biofuel, which today is one of the hallmarks of marketing, adding value to the countries that make of this product one of its basic elements.

KEY WORDS: Sugar cane, history, pests, diseases, development.

A cana-de-açúcar é descrita por Linneu, em 1753, como Saccharum officinarum e Saccharum spicatum. Desde então, sua classificação passou por várias modificações. Pertencente à família das gramíneas, muitos produtos são advindos dessa cultura, tais como açúcar, aguardente e álcool etílico (etanol). A origem da cana é por demais discutida. Supostamente, teve origem na Polinésia ou Papua Nova Guiné, na Oceania, indo ter na Polinésia. Outros estudos apontam o surgimento dessa cultura na Indonésia, Filipinas ou Norte da África. Em 1.000 a.C. acontece a expansão da cultura na Península Malaia, na Indochina e Baía de Bengala. Anos depois, em 800 a.C., a cana-de-açúcar chega à China.

A idade da cana-de-açúcar, imagina-se, vem de 10.000 anos a.C. No entanto, estudos feitos por pesquisadores em escrituras mitológicas de hindus e, também, nas escrituras sagradas apontam para 20.000 a.C.

O nome açúcar vem do sânscrito “sarkar” que significa grão de areia. No leste da Índia, o açúcar era chamado “shekar”. Os povos árabes o denominavam “al zucar”, que se transformou no espanhol “azucar” e no português “açúcar”. Na França é chamado de “sucre”, na Alemanha “zücker”, passando para o inglês “sugar”.

Em “História da Cana-de-açúcar e Meio Ambiente”, relata-se: “A cana-de-açúcar poderá ser considerada como a cultura agrícola mais importante da história da humanidade, pois provocou o maior fenômeno em termos de mobilidade humana, econômica, comercial e ecológica. A sua afirmação como cultura agrícola é milenar e abrange vários quadrantes do planeta. É de todas as plantas domesticadas pelo homem aquela que acarreta maiores exigências. Ela quase que escraviza o homem, esgota o solo, devora a floresta e dessedenta os cursos de água”.  Para plantar a cana-de-açúcar derruba-se e queima-se a floresta. Depois, para fabricar o açúcar essa floresta faz falta para manter acesa a chama dos engenhos. Alberto Vieira cita, ainda, Josué de Castro que, em sua “Geografia da Fome”, diz que: “Já afirmou alguém, com muita razão, que o cultivo da cana-de-açúcar se processa em regime de autofagia: a cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, dissolvendo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual a sua cultura tira toda a vida” (VIEIRA, 2002).


A EXPANSÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR


A cana-de-açúcar era plantada na Índia, desde 510 a.C., mas o seu consumo só acontece em 327 a.C., pelos indianos, que foram os primeiros povos a utilizar esse produto.

A cana-de-açúcar vai também para o ocidente levada por Alexandre, o Grande, rei da Macedônia no ano de 327 a.C.

Na Pérsia, em 500 d.C., a cana-de-açúcar tem sua expansão pelo oeste e, em 640, começa a ser cultivada no Mediterrâneo.

Com a comercialização do açúcar, os árabes, nos anos 700, começam a enriquecer e a cana-de-açúcar entra na lista de preciosidades.

Ao sul da Espanha, essa cultura dá entrada em 755 e em 1150 esse país investe na indústria canavieira.

A Itália tem na Sicília o berço dessa cultura, e a sua expansão chega à Inglaterra em 1099.

Por volta de 1418, D. Henrique, príncipe português, manda buscar na Sicília as primeiras mudas de cana-de-açúcar e estabelece o cultivo da cultura na Ilha da Madeira, que, a seguir, se expande para os Açores, Canárias e Cabo Verde, entre outras localidades.

Em 1493, Cristóvão Colombo, em sua segunda viagem marítima, insere a cana-de-açúcar no Novo Mundo.

Martim Afonso de Souza, em expedição à Ilha da Madeira, traz as primeiras mudas de cana-de-açúcar, S. officinarum, em 1502. A espécie é considerada nobre, pelo alto teor de açúcar, porte elevado, colmo grosso e baixo teor de fibras. No território brasileiro, a cultura se espalha devido ao solo fértil, de massapé e com ajuda de um clima adequado, tropical, quente e úmido e mão de obra escrava, trazida da África. Torna-se a primeira atividade agrícola do país.

O rei de Portugal, D. Manuel, em 1516, promulga o primeiro alvará tratando de promover o plantio da cana, determinado que se encontrasse “gente prática, capaz de dar princípio a um engenho no Brasil”.
“A Casa da Índia* teve papel fundamental na chegada e no desenvolvimento dos canaviais e na construção dos engenhos, trazendo pessoal da Ilha da Madeira e escravos da Guiné”. (BOLOGNINI, 2010).

No ano de 1520, a cana-de-açúcar alcança o México.


EXPANSÃO MEDIANTE O MERCADO


Com o status de artigo de luxo, a cana-de-açúcar surge como produto caro e sofisticado. Em 1319, 1 kg de açúcar vale, aproximadamente, US$ 100, sendo utilizado, também, na preparação de medicamentos. As nobres donzelas da época, entre os linhos, fitas e rendas de seus enxovais possuíam, no fundo das arcas de madeira, uma pequena caixinha de metal com esse precioso pó. O açúcar só se torna popular após sua entrada na Europa, quando são descobertas suas virtudes adoçantes.

A Índia produzia o açúcar bruto e, no século IX, apresenta a descrição do processo da cultura e fabricação do açúcar. Há uma descrição, em 300 a.C., em um documento religioso hindu, que descreve o primeiro processo de produção do açúcar de cana, que consistia em esmagar e ferver o bastão da cana para se obter o melaço.

Em 1506 inicia-se a trajetória de ascensão da cana-de-açúcar, marcada pelo começo de seu plantio em solo americano, originalmente em Cuba, Porto Rico e Haiti.

O primeiro engenho de açúcar brasileiro é introduzido por Martim Afonso de Souza em 1533, na capitania de São Vicente, litoral de São Paulo, recebendo o nome de São Jorge dos Erasmos. Depois, o açúcar passou a ser produzido nos Estados do Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Sergipe e Alagoas. A região que mais se desenvolveu foi a de Pernambuco, chegando a ter, em fins do século XVI, cerca de 70 engenhos.

Em 1535, Jerônimo de Albuquerque funda o primeiro engenho de açúcar no Nordeste, em Pernambuco, chamado de Engenho da Nossa Senhora da Ajuda, nas proximidades de Olinda.

Nesse mesmo ano, a cultura da cana-de-açúcar atinge as três Américas. No Norte, é introduzido o primeiro moinho. Colômbia, Venezuela, Porto Rico e Peru também têm suas terras tornadas propícias para o plantio da cana.

Em 1584 existem, no Brasil, cerca de 120 engenhos funcionando graças ao esforço de 10.000 escravos que produzem por volta de 3.000 toneladas de açúcar. O trabalho dos cortadores de cana é considerado uma das atividades mais vilmente exploradas, devido a jornadas e condições de trabalho desumanas.

“Gandavo** enuncia o conhecimento dos engenhos, assim quantificando; cinquenta e oito nas capitanias de Itamaracá, Pernambuco, Bahia de Todos os Santos, Ilhéus, Porto Seguro, São Vicente e Espírito Santo, sabendo-se à época que deles retirava-se o melhor açúcar que havia em todo o Brasil (...) Pode-se afirmar que, ainda hoje, as zonas açucareiras do Brasil são as mesmas que os portugueses escolheram no século XVI”. (BOLOGNINI, 2010). 

Ainda em 1584, na Europa, o açúcar é denominado “ouro branco”, devido à riqueza que gerava.

No Novo Mundo, em 1600, as lavouras e indústrias de cana-de-açúcar constituem-se em investimentos dos mais lucrativos e o Brasil é considerado o maior produtor de açúcar do mundo.

É implantado, no Brasil, o primeiro engenho de três cilindros, o que confere ao país posição de líder como produtor, ao mesmo tempo em que consolida sua liderança comercial, em 1613.

Ao chegar ao século XVIII é estabelecido um marco dando início à evolução do sistema de trituração da cana, com a utilização da máquina à vapor.

Em 1635 há a expansão da cultura da cana na Jamaica, devido a investimentos ingleses. É criado, então, o “trem jamaicano”, inovação tecnológica para o processo de cozedura da cana. Trata-se de um sistema que conseguia alimentar as três fornalhas com apenas uma fogueira e, ao mesmo tempo, aproveitar o bagaço como combustível. Graças a essa invenção, considerada solução eficaz para a época, a Grã-Bretanha obteve mais recursos de sua colônia na Jamaica, diminuindo sua dependência do produto importado, igualando-se com Portugal e Espanha, no mercado do açúcar.

À época de 1638, os escravos africanos e afro-brasileiros constituem 100% da força de trabalho na Bahia, nessa cultura.

Os Estados Unidos têm a sua vez em 1751, quando a cana–de-açúcar  chega à Louisiana.

Também os chineses, em 1802, na Ilha Lanai (Hawai) iniciam fabricação do açúcar.

Em 1815 é implantado o primeiro engenho à vapor, outra técnica de extração do açúcar, na Ilha de Itaparica, no Brasil. A primeira referência histórica à massara, prensa utilizada para moer a cana, já ocorrera em 1176. E, ainda no século XII, a China inova com outra técnica de produção, a roda vertical.

A Austrália, em 1823, executa as primeiras experiências de cultivo da cana-de-açúcar, em Port Macquarie.

Em 1830 é descoberta a caldeira de vácuo por Norbert Rillius, natural de New Orleans. Essa técnica revolucionou o fabrico do açúcar e foi a que mais contribuiu para a economia de combustível.


CONTRAPONTO À CANA-DE-AÇÚCAR


Para estabelecer outros produtos que gerassem o açúcar, o químico alemão Andreas Marggraf, em 1747, descobre, com base em experiências do agrônomo francês Olivier de Serres, que é possível extrair açúcar da beterraba. Entretanto, o custo de produção é muito superior ao da cana, não resultando no sucesso esperado. Mas, em 1806, o bloqueio continental estabelecido por Napoleão Bonaparte promove a cultura da beterraba. Em 1812 a França passa a dominar o desenvolvimento de outras tecnologias de extração do açúcar de beterraba, visando ao aumento da produção açucareira. De 1883 a 1902 a produção do açúcar de beterraba chega a superar a da cana-de-açúcar. Porém, a partir desse período, até os dias atuais, a produção do açúcar da cana vem superando a da beterraba.
A Alemanha, em 1801, funda a primeira fábrica de açúcar de beterraba em Kunern, por Franz Carl Achard, estudante das teorias de Marggraf.

Uma inovação tecnológica para produção de açúcar vem com os japoneses nos anos 1939-1945, quando extraem açúcar da batata-doce.


SUBPRODUTOS DA CANA-DE-AÇÚCAR


Em 1838 é descoberta, na Martinica, mais uma função para a utilização do bagaço da cana: a produção de papel, que começa a ser fabricado.

A sacarina é o primeiro adoçante artificial descoberto e um dos mais poderosos e conhecidos. Em 1879, foi descoberto, acidentalmente, pelos químicos Ira Remsen e Constantine Fahlberg, da Universidade Johns Hopkins, que desenvolveram um processo industrial para sua produção e registraram sua patente em 1885. O nome sacarina origina-se do latim sacharum, que significa açúcar.

O segundo adoçante descoberto, também por acidente, é o ciclamato, pelo então estudante de graduação Michael Sveda, da Universidade de Illinois, em 1937.

O terceiro adoçante, o aspartame, também foi descoberto por acaso, pelo químico James Schlatter, da Companhia G D Searle, quando pesquisava uma droga antiúlcera, em 1965.


AMEAÇAS: DOENÇAS E PRAGAS


Em 1863, a gomose da cana-de-açúcar é observada, pela primeira vez, no Brasil, no Estado da Bahia. Foi a primeira doença bacteriana de vegetais descrita no mundo.

Em 1890, a ferrugem da espécie Puccinia Kuehnii torna-se conhecida, mas apresenta distribuição limitada na Indonésia, Índia, China e Austrália, até os anos 80. No fim dos anos 90 alastra-se pelos canaviais australianos, provocando grandes prejuízos. O fungo atinge a variedade Q124, que representava 45% da área de cana ocupada, provocando queda de 24% na produção de açúcar por hectare.

Em 1946, o “carvão da cana” é identificado, pela primeira vez, no continente americano, pelo fitopatologista do Instituto Biológico, Spencer Corrêa de Arruda, na Cidade de Assis, São Paulo, de onde se expandiu para as principais zonas canavieiras. A doença, de origem asiática, é causada pelo fungo Ustilago scitaminae, que parasita a cana, impede seu desenvolvimento e reduz seu teor sacarino. Em 1956 é assinado o convênio para o controle do carvão da cana, pela Secretaria da Agricultura, pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), pela Associação dos Usineiros de São Paulo e pelas Associações dos Fornecedores de Cana do Estado de São Paulo. O convênio possuía cláusula de renovação de cinco em cinco anos e prosseguiu até os anos 1980.

Em 1966 é estabelecido um trabalho de cooperação entre o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Instituto Biológico. Segundo esse acordo, o IAC seleciona as variedades e o IB testa a resistência ao fungo e a outras doenças da cana-de-açúcar.

Em 1971 é criado o Planalsucar – Programa Nacional de melhoramento da cana-de-açúcar. O programa, de abrangência nacional, é criado pelo IAA e deu continuidade às pesquisas. Mais tarde, foi extinto.

Em 1986, a “Ferrugem Marrom” chega ao Brasil, após 8 anos de sua chegada aos países do Caribe e da América Central, vinda da África por meio de correntes aéreas.  A doença é causada por um fungo do gênero Puccinia, P. melanocephala.

Em 1991 é criada a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro – RIDESA, formada por Universidades Federais e pelo Ministério da Educação e Desporto. Foi criada com a finalidade de incorporar as atividades do extinto Planalsucar e dar continuidade ao desenvolvimento de pesquisas, visando à melhoria da produtividade do setor.

Em 1993, o “Amarelinho da cana-de-açúcar” atinge os canaviais paulistas, resultando em queda de, aproximadamente, 30% da produção de algumas usinas.

Em 1998, o Instituto Biológico começa a desenvolver pesquisas para o controle biológico da cigarrinha-da-raiz da cana, Mahanarva fimbriolata, com a utilização do fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae. Essa praga teve seu aumento de população favorecido pela colheita sem queima. O controle desse inseto com o fungo entomopatogênico é uma alternativa viável do ponto de vista ecológico e econômico.

Em 2007 a “Ferrugem Alaranjada”, fungo da espécie P. kuehnii é detectada, pela primeira vez, nos EUA, na Flórida e, em seguida, na Guatemala e Nicarágua, prejudicando, drasticamente, a indústria sucroalcooleira desses países. A doença, de origem asiática, existe desde o século 19, na Ásia e na Austrália. Atinge as folhas da cana-de-açúcar e reduz a produção de açúcar. Em 2008 é detectada a ocorrência da ferrugem alaranjada em canaviais do México, Panamá, El Salvador e Jamaica.

A “ferrugem alaranjada” é confirmada oficialmente no Brasil, em 2009, nas regiões de Araraquara, Ribeirão Preto e Piracicaba, importantes regiões produtoras da cana-de-açúcar. A doença, que vem atingindo gravemente os canaviais paulistas, é de fácil propagação, espalhando-se pelo vento e até pelas roupas usadas por pessoas que estiveram em canaviais infectados.

Em 2008, o IAC inaugura o Centro de Convenções da Cana-de-açúcar, espaço destinado a eventos e encontros para a transferência de tecnologia.

Em 2010, o Ministério da Agricultura cria, em 18 de janeiro, uma comissão técnica para monitorar a situação da ferrugem alaranjada na cana-de-açúcar e definir formas de combate à doença, já confirmada em onze cidades do Estado de São Paulo. Técnicos do Instituto Biológico, entre outros, fazem parte da comissão.


PRINCIPAIS DOENÇAS DA CANA-DE-AÇÚCAR


Amarelinho – Também conhecida como Vírus do Amarelecimento Foliar da Cana-de-açúcar, é causada por vírus, transmitido pelo pulgão Melanaphys sacchari. Foi relatada, pela primeira vez, no Brasil, em 1989. A doença começa a se tornar um problema para a cultura canavieira e, em 1993, assume caráter endêmico em plantações comerciais no Estado de São Paulo, com perda de até 50% da lavoura. As folhas das plantas afetadas tornam-se amarelas na nervura central e no limbo foliar. As folhas mais velhas apresentam coloração vermelha na nervura central. A seguir, o limbo foliar apresenta perda de pigmentação, seguida da necrose do tecido.

Carvão da cana – Seu agente causador é o fungo U. Scitaminea. A doença foi relatada, pela primeira vez, no Brasil, em 1946, no Estado de São Paulo, mas, atualmente, ocorre em todas as regiões do Brasil. Pode causar sérios danos ao canavial, com perdas de até 100% das variedades mais suscetíveis. Os danos acarretam a redução da produção e a perda de qualidade do caldo. Das doenças que atingem a cana-de-açúcar, o Carvão é a de mais fácil identificação.

Escaldadura das folhas – É causada pela bactéria Xanthomonas albilineans. Na sua fase mais aguda pode causar a perda total do canavial, por queima completa das folhas, apodrecimento dos colmos, morte das touceiras e queda da produção.

Estria Vermelha – É causada pela bactéria Acidovorax avenae. É de origem asiática. No Brasil, foi observada, pela primeira vez, em 1935, no Rio de Janeiro. Pode causar a perda completa da colheita pela destruição total dos colmos. Está presente nas principais regiões canavieiras do mundo. No Brasil, sua presença é restrita, pois requer condições climáticas e de solo específicas como, entre outras, alta fertilidade do solo.

Ferrugem da cana – É causada pelo fungo P. melanocephala. Conhecida há mais de 100 anos, foi detectada, pela primeira vez, no Brasil, em 1986. Pode ocasionar perdas de até 50% das variedades mais suscetíveis à doença. A planta apresenta crescimento retardado, morte de perfilhos, colmos finos e encurtamento de entrenós. As folhas tornam-se queimadas e sem brilho.

Mancha parda – É causada pelo fungo Cercospora longipes. Doença relatada em mais de 30 países, ocorre em várias regiões canavieiras do Brasil. As folhas adultas apresentam manchas de coloração marrom-avermelhada e marrom-amarelada em sua superfície e, eventualmente, halos cloróticos em seu contorno. O controle da doença nos canaviais pode ser obtido com o uso de variedades mais resistentes ao fungo.

Mosaico – O agente causador é o vírus do mosaico da cana-de-açúcar. Sua descoberta deu-se em 1922. Na década de 1929 foram registradas, no Brasil, sérias epidemias do mosaico. Em 1925, foram descobertos e produzidos, em Java, híbridos resistentes ao vírus. Em 1930, cerca de 93% dos canaviais paulistas já são resistentes ao vírus. A transmissão natural do vírus se dá por meio de pulgões, que são os vetores da doença. As folhas apresentam áreas com intensidades contrastantes de verde. Em um grau mais avançado podem tornar-se avermelhadas e evoluir para necrose.

Raquitismo da soqueira – É causada pela bactéria Leifsonia xyli. Pode causar prejuízos de 5 a 30% na produtividade e infeccionar até 100% do canavial. Considerada uma das mais importantes doenças da cana, foi descrita, pela primeira vez, na Austrália, em 1944 e, em 1989, já havia sido relatada em 61 países produtores de cana.

Podridão abacaxi – É causada pelo fungo Ceratocystis paradoxa. A doença ataca as mudas da cana-de-açúcar que, quando cortadas de forma longitudinal, exalam um odor característico de abacaxi. O fungo não possui mecanismos próprios de penetração, utilizando aberturas naturais ou ferimentos provocados por ratos ou insetos. Em canaviais recém-implantados ocorrem, nas mudas, baixa germinação e morte de brotos novos.

Podridão de fusarium – Também conhecida como fusariose tem, como agente causador, o fungo Fusarium moniliforme, que pode contaminar a planta em qualquer fase de seu desenvolvimento. A doença pode ocasionar baixo desenvolvimento da planta, perda do vigor, podridão da raiz e do colo e redução do tamanho dos brotos, entre outros sintomas. No colmo, ferimentos provocados pela broca-da-cana abrem caminho para a entrada do fungo. Outro dano importante é o Pokkah-boeng, termo javanês que significa “deformação do topo da cana-de-açúcar”. O controle pode ser obtido com o uso de variedades mais resistentes ao fungo e o controle da broca-da-cana.

Podridão vermelha – É causada pelo fungo Colletotrichum falcatum. A doença, que ocorre no mundo todo, causa sérios prejuízos econômicos, pois provoca a inversão da sacarose, que reduz o rendimento no processamento da cana. Em colmos atacados também pela broca-da-cana, cuja perfuração permite a entrada do fungo, a perda de sacarose é de 50% a 70%. O colmo, quando partido longitudinalmente, apresenta grandes manchas vermelhas, separadas por faixas mais claras ou brancas. O controle da doença pode ser obtido com o uso de variedades mais resistentes ao fungo, eliminação de restos de culturas contaminadas, controle da broca-da-cana e plantio de mudas de boa qualidade.

Atualmente, essas doenças podem ser controladas por meio de melhoramento genético de variedades.


PRINCIPAIS INSETOS-PRAGAS


A cultura de cana-de-açúcar pode ser atacada por mais de 80 espécies de pragas. Mundialmente, a cana-de-açúcar sofre perdas de aproximadamente 20% ao ano, levando-se em conta o ataque de insetos-pragas a diferentes partes da planta. Os danos causados por insetos-pragas são variados e podem ser evidenciados em diferentes órgãos da planta.

Nas raízes destacam-se as seguintes pragas: cigarrinha-da-raiz da cana-de-açúcar (M. fimbriolata), Percevejo-castanho (Scaptocoris castanea e Atarsocoris brachiariae); besouros (Ligyrus spp., Euetheola humilis, Stenocrates spp., Migdolus fryanus, Sphenophorus levis e Metamasius hemipterus) e cupins (Heterotermes tenuis, Procornitermes sp., Nocapritermes sp., Syntermes sp., Cornitermes sp.)
Nos colmos são encontrados os insetos-pragas: broca da cana-de-açúcar (Diatrea saccharalis), Broca-gigante (Telchin licus) e Elasmo (Elasmopalpus lignosellus).
Nas folhas destacam-se Lagarta-do-cartucho - Spodoptera frugiperda, Curuquerê-dos-capinzais - Mocis latipes e Pulgões - Rhopalosiphum maidis e Melanaphis sacchari.


NOVOS RUMOS


No século XIX, começa a ser abolido, no mundo todo, o modelo escravagista, o que leva os produtores de cana a investirem em novas técnicas de produção, tecnologia e infraestrutura. A introdução da máquina à vapor, da evaporação, dos cozedores à vácuo e das centrífugas, como reflexo dos avanços apresentados pela revolução industrial, faz com que a produção comercial de açúcar experimente notáveis desenvolvimentos tecnológicos. O Brasil, em princípio, manteve o modelo antigo e acaba sendo suplantado por outros países. Somente mais tarde, substitui a mão de obra escrava pela tecnologia, transforma os engenhos em usinas e obtém, então, ganhos de produtividade.

Em 1887, o botânico alemão F. Soltwedel realiza, em Java, o primeiro cruzamento no mundo, em cana-de-açúcar e, em 1891 e o Instituto Agronômico de Campinas, inicia suas pesquisas com cana-de-açúcar, criando programa de melhoramento genético.


CRISES


Nos anos 1930, após a crise cafeeira de 1929, ocorre a expansão de novas culturas nas antigas zonas cafeeiras, como forma de aproveitar as terras e a mão de obra. Entre essas culturas destaca-se a da cana-de-açúcar. A cidade de Piracicaba é uma das maiores produtoras da cultura.

Em 1933, a crise estabelecida leva à criação do Instituto do Açúcar e do Álcool, no Brasil, durante o governo do presidente Getúlio Vargas. O IAA tem o objetivo de controlar a produção, o comércio e a exportação, para manter os preços em nível adequado, protegendo o produto brasileiro no mercado mundial. A criação do Instituto é uma das ações empreendidas pelo governo para recuperar a economia brasileira, fortemente abalada pelo “crash” da bolsa de Nova York que afetou, além do café, a economia canavieira. Foi extinto em 1990, por conta de cortes de gastos da máquina governamental.


CONTROLE BIOLÓGICO


Em 1949 é iniciado, no Brasil, pelo Departamento de Entomologia da ESALQ/USP, programa visando ao controle biológico da broca da cana-de-açúcar, D. saccharalis. E em 1959 é criada a Copersucar – Cooperativa de Produtores de Cana-de-açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo – com o objetivo de comercializar a produção de seus associados.

Entre 2002 e 2004 o Instituto Biológico desenvolve um trabalho de assessoria para a implantação de biofábricas para produção de bioinseticidas. Esse trabalhou gerou, nesses anos, mais de 150 novos empregos diretos criados no Estado de São Paulo. Nesse período, cerca de 1.950 toneladas do fungo entomopatogênico M. anisopliae foram utilizadas para tratar uma área de, aproximadamente, 390.000 ha de canaviais paulistas, gerando uma economia próxima de R$ 97 milhões de reais no custo de controle, quando comparado aos inseticidas químicos. O controle biológico de pragas de solo tais como cupins, Migdolus e S. levis, com fungos e nematoides entomopatogênicos, também faz parte das pesquisas em desenvolvimento na Instituição. As biofábricas se constituem em importante alternativa para a agricultura sustentável.


ENERGIA ALTERNATIVA


Em 1973 ocorre a primeira crise mundial do petróleo. O preço médio do barril de petróleo passa de US$ 2,91, em setembro de 1973 para US$ 12,45, em março de 1975. O setor sucroenergético do Brasil apresenta, como fonte de energia alternativa, a produção do álcool combustível ou etanol.

No ano de 1975, em 14 de novembro, o governo brasileiro cria, em parceria com o setor privado, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que objetiva diminuir a dependência nacional da importação de petróleo.  A atuação da indústria açucareira, com grandes investimentos apoiados pelo Banco Mundial, possibilita a ampliação da área plantada com cana-de-açúcar e a implantação de destilarias de álcool. A experiência serve como alternativa para diminuir a vulnerabilidade energética do país, devido à crise mundial do petróleo.

Em 1979 ocorre a segunda crise do petróleo. O Brasil lança a segunda fase do Próalcool, que conta com um investimento que cobre até 80% do investimento fixo das destilarias. Além disso, a engenharia nacional cria motores especialmente desenvolvidos para funcionar com etanol hidratado.

Nesse mesmo ano, os primeiros carros movidos a álcool começam a ser comercializados.

Em 1983, a Copersucar tem atuação decisiva na campanha “Carro à álcool: você ainda vai ter um”, que ajudou a fortalecer a defesa da participação do etanol na matriz energética do país.

Em 1984, os carros movidos à etanol representam 94,4% da produção das montadoras instaladas no Brasil.

Em 1985, o Brasil aposta na fabricação de álcool como combustível, hoje considerado pouco poluente.
De 1975 até 1986 a produção de álcool etílico salta de 661 mil m³ para 118 milhões de m³. Mas, nos anos seguintes, a redução do preço do petróleo e a estabilização de sua produção colaboram para o declínio do Proálcool. O Brasil possui 95% de carros movidos à álcool e a excessiva demanda pelo produto gera a necessidade de importação de subprodutos da cana. Em 1986, a redução do impacto da crise do petróleo e os planos econômicos internos para combater a inflação estimulam uma curva descendente na produção de carros à etanol, que culminou com a crise de abastecimento de 1989. Com isso, a participação anual dos veículos à etanol caiu para 1,02% na frota nacional, em 2001. Em 1990, a agricultura paulista apresenta uma estrutura agrícola mais complexa e modernizada. A produção da cana-de-açúcar utiliza insumos modernos industrializados e integra-se às usinas de açúcar e álcool.

Entre 2001 e 2005 a quantidade de álcool exportado pelo Brasil cresce 614,3%, mais acentuadamente em 2004, com o crescimento do volume exportado de álcool carburante. Hoje, as exportações do etanol brasileiro são concentradas em basicamente três mercados: Europa, Japão e Estados Unidos. A participação brasileira no volume total comercializado de etanol atinge de forma direta 53% da quantidade total vendida (MAPA, 2011).

Entre 2004 e 2005, na safra desses anos, a produção no Brasil foi de 15,3 bilhões de litros de álcool e 26,6 milhões de toneladas de açúcar. Somente o Estado de São Paulo, que concentra 147 usinas e destilarias, foi responsável pela produção de 9,1 bilhões de litros de álcool e 16,5 milhões de toneladas de açúcar.


LIDERANÇA NA PRODUÇÃO DA CANA-DE-AÇÚCAR


De 1990 a 2000 as pesquisas da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) consolidam o Brasil e a Índia como líderes na produção de cana-de-açúcar. O Brasil produz cerca de 370 milhões de toneladas de cana por ano, o que equivale a 27% da produção mundial.

Em 1992 é realizada, no Rio de Janeiro, a II Conferência das Nações Unidas, sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, conhecida mundialmente como Rio 92. O evento tem como tema principal, a discussão sobre o desenvolvimento sustentável e as formas de reversão do processo de degradação ambiental. A partir daí, o interesse pelo álcool combustível aumentou consideravelmente em países como Índia, China, Austrália, Japão e Coreia do Sul, entre outros. O uso do álcool combustível mantém o Brasil na vanguarda da tecnologia da cana.

Responsável por mais da metade do açúcar comercializado no mundo, o Brasil deve alcançar taxa média de aumento da produção de 3,25%, até 2018, e colher 47,34 milhões de toneladas do produto, o que corresponde a um acréscimo de 14,6 milhões de toneladas em relação ao período 2007/2008. Para as exportações, o volume previsto para 2019 é de 32,6 milhões de toneladas (MAPA).


ESPAÇO PARA PLANTAR


O setor sucroalcooleiro nacional é referência para os demais países produtores. A cana-de-açúcar é produzida em quase todo o País, sendo 60% em São Paulo. As demais zonas produtoras são Paraná, Triângulo Mineiro e Zona da Mata Nordestina.

Líder mundial na produção de etanol da cana-de-açúcar, o Brasil possui disponibilidade de terras cultiváveis para o plantio da cana, sem prejuízo dos outros alimentos, tecnologia de produção e estrutura na distribuição.

Em 2003, cerca de 35% da produção brasileira de cana-de-açúcar já era mecanizada.

Em 2006, a cultura da cana-de-açúcar ocupa cerca de 6,5 milhões de hectares de terras, o que equivale a 1,5% dos solos cultivados no Brasil, conferindo ao país expressivo vigor econômico e social.


LUCROS


A produção açucareira assume papel de destaque na economia brasileira. O faturamento do setor sucroenergético é de R$ 42 bilhões e as exportações superam US$ 6 bilhões, conforme anunciado em 2007 e 2008.

O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar e o maior exportador mundial de açúcar e etanol. Possui mais de 7 milhões de hectares plantados, cerca de 400 usinas processadoras, mais de 1.000 indústrias de suporte e 70 mil fornecedores de cana-de-açúcar. Produz mais de 480 milhões de toneladas de cana, o que coloca o país na liderança mundial em tecnologia de produção de etanol. Além da matéria-prima para a produção de açúcar e álcool, seus subprodutos e resíduos são utilizados para a cogeração de energia elétrica, fabricação de ração animal e fertilizante para as lavouras.

Segundo informações da assessoria de comunicação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, em janeiro de 2010, o Estado de São Paulo é o maior produtor de cana, açúcar e álcool do País, respondendo por quase 60% da produção brasileira, com cerca de cinco milhões de hectares cultivados. Na última safra, produziu em torno de 400 milhões de toneladas. A cana é o primeiro item na pauta de exportações do agronegócio paulista, contabilizando mais de US$ 5 bilhões em divisas para o Estado.

Esses números deverão aumentar consideravelmente nos próximos anos, devido à demanda por novos combustíveis. O setor sucroalcooleiro é um dos que mais crescem no país. No entanto, questões ambientais e sociais exigem uma nova estratégia tecnológica para a colheita da cana. Assim, foi criada a Lei nº 10.547/00 que, regulada pelo Decreto nº 48.896/01, proíbe a queima da palha nos canaviais. A queimada representa um ganho de produtividade da mão de obra e do maquinário utilizado na colheita, mas causa um enorme impacto ambiental e social, pois é fonte de produção e emissão de gases tóxicos, que provocam efeito estufa. A Lei prevê a eliminação gradativa do fogo na colheita da cana no prazo de 20 anos, permitindo que o setor sucroalcooleiro possa adaptar-se ao novo cenário e, em conjunto com as instituições de pesquisa, equacionar os novos problemas surgidos, dentre os quais os de ordem fitossanitária, como as pragas, as doenças e o controle de plantas daninhas.


QUEDAS NA PRODUÇÃO – FATORES


Originários da década de 70, os primeiros trabalhos do IB mostram a importância dos estudos ecológicos nos programas de controle de plantas daninhas em diversas culturas, em especial na cultura da cana-de-açúcar, que demonstrou que todo desenvolvimento genético, fitotécnico e nutricional da cultura pode ser comprometido devido à presença de plantas daninhas, que causam quedas significativas na produção. Diversos aspectos relacionados ao manejo das plantas daninhas na cultura da cana-de-açúcar são objetos de estudos por pesquisadores da Instituição. Destaca-se a utilização dos herbicidas como agente no controle das plantas daninhas, onde as investigações não se limitam apenas aos aspectos de eficiência de controle e praticabilidade de uso, mas vão mais além, monitorando aspectos ecotoxicológicos dos principais herbicidas utilizados na cana-de-açúcar, como a sua persistência e lixiviação no solo, efeito sobre os micro-organismos edáficos e simbiontes. Dessa forma, procura-se fornecer informações que maximizem o uso dos herbicidas como agentes no controle das plantas daninhas e que minimizem o seu impacto no ambiente.


O INSTITUTO BIOLÓGICO E A CANA-DE-AÇÚCAR


O Instituto Biológico conta com pesquisadores atuantes em todas as áreas relacionadas às pragas e doenças da cultura da cana-de-açúcar. Em Campinas, estão localizados os Laboratórios de Bacteriologia Vegetal, Fitopatologia, Nematologia e Controle Biológico, enquanto São Paulo abriga o Laboratório de Fitovirologia e Fisiopatologia.

O Instituto Biológico participa do Programa Cana IAC no desenvolvimento de novas variedades de cana, auxiliando na disponibilização ao setor de variedades resistentes às principais doenças da cultura. Nos últimos três anos, o IAC liberou oito variedades de cana-de-açúcar, contando com a participação do Instituto Biológico.

Os primeiros trabalhos feitos na Instituição - “Alguns nematodes parasitas e semi-parasitas das plantas culturaes do Brasil” (Trabalhos I e II) foram publicados na revista “Arquivos” pelo Prof. Gilbert Rahm, da Ordem Beneditina, da Universidade do Chile. Esses foram desenvolvidos na Seção de Fitopatologia do Instituto Biológico. O primeiro foi publicado em 1928, na revista “Arquivos do Instituto Biológico”, ano de sua criação e o segundo em 1929, na mesma revista. Os artigos descrevem nematoides de diversas culturas como: cafeeiro, bananeira, laranjeira, cebola, musgo e cana-de-açúcar. O segundo trabalho está rico em ilustrações e fotografias, executadas por Joaquim F. Toledo e Alberto Feldman, respectivamente. Esse dois trabalhos foram publicados anteriormente em alemão e traduzidos pelo Frei Thomaz Borgmeier da Ordem Franciscana.

Técnicos que trabalharam e trabalham com a cultura da cana-de-açúcar, no Instituto Biológico, desde sua criação: Agesilau Antonio Bitancourt, Albino Rozanski, Antonieta Pigatti, Antonio Batista Filho, Carlos Eduardo Rossi, Cláudio Marcelo Gonçalves de Oliveira, Flávio M. Garcia Blanco, Hélio Garcia Blanco, Hermano Vaz de Arruda, Irene Maria Gatti de Almeida, Jacob Bergamin, José Eduardo Marcondes de Almeida, José Pinto da Fonseca, Silvio Franco do Amaral, Spencer C. Arruda, Laerte Antonio Machado, Luis Garrigós Leite, Marcos C. Gonçalves, Marcus B. Matallo, Nelson Suplicy Filho, Pedro Pigatti, Valmir Antonio Costa e Wilson Brandão Tóffano.


CURIOSIDADES SOBRE A CANA-DE-AÇÚCAR

O Brasil tornou-se um dos principais exportadores de açúcar para a comunidade europeia. Nesse momento, segundo (Gilbert, 1978), “Substituído o uso milenar do mel, o açúcar era mais usado que o sal. Punha-se açúcar na água, no vinho, na carne e no peixe. Acreditava-se que fortalecia o espírito e o corpos, especialmente o peito, os pulmões e a garganta. Em pó, o açúcar era bom para os olhos e sarava as feridas. Mais tarde, o seu consumo se tornaria ainda maior quando os europeus aprenderam a adicioná-lo às novas bebidas que também vinham dos trópicos – o chocolate da América, o chá da Índia, o café da Arábia e Turquia”.


A CANA-DE-AÇÚCAR NA PROSA, POESIA E MÚSICA

O Brasil é, atualmente, o principal produtor de cana-de-açúcar, gerando inúmeros benefícios para a consolidação da economia brasileira. No entanto, desde o século XVI, já se constituía na base da economia do país, sobretudo na região nordeste. A importância dessa cultura ultrapassa o âmbito econômico, refletindo-se, também, nas artes literárias. O ciclo da cana-de-açúcar foi retratado por vários expoentes da literatura brasileira. Entre eles, merecem destaque José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e Gilberto Freyre, que tão bem imortalizaram o mundo dos engenhos, seja em prosa ou em versos. Os romancistas descreveram magistralmente a sociedade açucareira e as relações patriarcais, os trabalhadores e seus patrões, as conturbadas relações escravistas e o apogeu e a decadência dos engenhos, sobretudo na região nordeste do país.

O escritor paraibano José Lins do Rego vinha de uma família de senhores de engenho e, assim, abordou, de forma realista, a cultura açucareira em 5 romances, que define como o ciclo da cana-de-açúcar :
1932 – Menino de Engenho
1933 – Doidinho
1934 – Banguê
1935 – O moleque Ricardo
1936 – Usina
Em 1943, voltou a escrever sobre o assunto em “Fogo Morto”, sua obra mais expressiva.
A cana-de-açúcar também é temática frequente nas obras do sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre, que abordou o tema em sua obra monumental “Casa Grande & Senzala”, em 1933 e, mais tarde, em “Assucar”, obra literária de 1939.
O poeta recifense João Cabral de Melo Neto, também filho de senhores de engenho, discorreu de forma expressiva sobre a cana-de-açúcar, figura central de várias de suas poesias, tais quais:
“Fogo no Canavial”,“O Canavial e o Mar”, “O vento no Canavial”, “A voz do canavial”, “A arquitetura da cana”, “A cana-de-açúcar menina” e “Pernambucano em Málaga”, entre outras:

O FOGO NO CANAVIAL
A imagem mais viva do inferno.
Eis o fogo em todos seus vícios:
eis a ópera, o ódio, o energúmeno,
a voz rouca de fera em cio.
E contagioso, como outrora
foi, e hoje, não é mais, o inferno:
ele se catapulta, exporta,
em brulotes de curso aéreo,
em petardos que se disparam
sem pontaria, intransitivos;
mas que queimada a palha dormem,
bêbados, curtindo seu litro.
O inferno foi fogo de vista,
ou de palha, queimou as saias:
deixou nua a perna da cana,
despiu-a, mas sem deflorá-la.

 

O CANAVIAL E O MAR
O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não ensina ao canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
O que o canavial não ensina ao mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

 

O VENTO NO CANAVIAL

Não se vê no canavial
nenhuma planta com nome,
nenhuma planta Maria,
planta com nome de homem.

É anônimo o canavial,
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel em branco de escrita.

É como uma grande lençol
sem dobras e sem bainha;
penugem de moça ao sol,
roupa lavada e estendida.

Contudo há no canavial
oculta fisionomia:
como em pulso de relógio
há possível melodia,

ou como de um avião
a paisagem se organiza,
ou há finos desenhos nas
pedras da praça vazia.

Se venta no canavial
estendido sob o sol


seu tecido inanimado
faz-se sensível lençol,

se muda em bandeira viva,
de cor verde sobre verde,
com estrelas verdes que
no verde nascem, se perdem.

Não lembra o canavial
então, as praças vazias:
não têm, como têm as pedras,
disciplina de milícias.

E solta sua simetria:
como a das ondas na areia
ou a onda das multidão
lutando na praça cheia.

Então, é de praça cheia
que o canavial é a imagem:
vêem-se as mesmas correntes
que se fazem e desfazem,

voragens que se desatam,
redemoinhos iguais,
estrelas iguais àquelas
que o povo na praça faz.


A VOZ DO CANAVIAL

Assim canta o canavial,
ao vento que por suas folhas,
de navalha a navalha soa,
vento que o dia e a noite toda
o folheia, e nele se esfola.

A CANA-DE-AÇÚCAR MENINA

A cana-de-açúcar, tão pura,
se recusa, viva, a estar nua:
desde cedo, saias folhudas
milvestem-lhe a perna andaluza.


ARQUITETURA DA CANA

O aberto alpendre acolhedor
no casarão sem acolhimento
tira a expressão amiga, amável,
do que é de fora e não de dentro:

dos lençóis de cana tendidos,
postos ao sol até onde a vista,
e que lhe dão o serviço aberto
que disfarça o que dentro é urtiga.

PERNAMBUCANO EM MÁLAGA

A cana doce de Málaga
dá dócil, disciplinada:
dá em fundos de quintal
e podia dar em jarras.

Falta-lhe é a força da nossa,
criada solta em ruas, praças:
solta, à vontade do campo,
nas praças das grandes várzeas.

Cana-de-açúcar na visão de outros poetas:

CANA DE AÇÚCAR, VIDA

Sol a pino,
Curvo-me diante de ti,
Cana esguia ou caiada, principesca!
Te pego dourada.

Filha da terra...
Áspera pele, minhas mãos sangram
Decepo-a, dilacero-a, descubro-a
Mordo-a toda! Inteira!
Nó a nó ...Tu és doce, doçura...

Vida.

Gostosa!

(Cíntia Thomé)

AS CARRETAS DE CANA-DE-AÇÚCAR

As carretas
atadas a um trator
não só levam o peso das canas.
Às vezes
mostram
que levam a voz
o modo de andar
a camisa xadrez aberta no peito,
os filhos
e a amplidão
dos braços que levam as canas.

(Luís Sérgio dos Santos)

 

BELEZA RARA

Foi no colonizar
que trouxeram e plantaram o açúcar
pra perto de mim,
pois o nosso litoral,
minha vida, é tão lindo

Pois a monocultura mandava
nessa região
que os escravos iam cuidar
mão de obra teria que ter
se preciso

Você foi refinada pra Europa,
navios bem cheios,
e assim de invejar,
a imensa vontade de estar
ao seu lado

Nem senzala, capela,
nem na Casa Grande nos olhos,
minha coisa rara,

Eu não vou negar sem você
o mundo pára

Mil voltas holandeses vinham
ao Nordeste pra te encontrar
Produto igual a você,
Doçura rara (2x)
Hoje eu moro num engenho,
só por causa de você.

Hoje a Cana de Açúcar eu vendo,
só porque preciso de crescer.
Açúcar eu vendo
Hoje eu moro num engenho,
só por causa de você.
Hoje a Cana de Açúcar
eu vendo,
só porque preciso de crescer.

(Paródia da música Beleza Rara -
Homenagem a cana-de-açúcar)

(Rinaldo Pedro)

A cana-de-açúcar também foi tema de escola de samba. Em 2001, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense apresentou o samba-enredo  “CANA- CAIANA,  CANA-ROXA, CANA-FITA, CANA-PRETA, AMARELA, PERNAMBUCO...QUERO VÊ DESCÊ O SUCO, NA PANCADA DO GANZÁ”, de autoria dos compositores Guga, Tuninho Professor e Marquinho Lessa:

Cana-caiana,

Cultura que o árabe propagou
Apesar dos cruzados plantarem,
A cana na Europa não vingou
Mas conta a história que em Veneza
O açúcar foi pra mesa da nobreza
Virou negócio no Brasil, trazida de além-mar

E, nesta terra, o que se planta dá
Gira o engenho pra sinhô, Bahia faz girar
E, em Pernambuco, o escravo vai cantar

(Quero vê)
Quero vê descê o suco até melá
Na pancada doce do ganzá

Pinga...
Olha a cana virando aguardente

No mercado do ouro atraente
Paraty espalhou a bebida
Pra garimpar, birita tem
Na Inconfidência foi preferida
Pra festejar, o que é que tem ?
Tem Carlos Cachaça, não leve a mal
Taí a verde-e-rosa em meu carnaval
(vem provar minha cachaça)

Vem provar minha cachaça, amor ôôôô
O sabor éverde-e-branco
Passa a régua e dá pro santo
Que a Imperatriz chegou

Além de retratada em prosa, verso e música a cultura da cana-de-açúcar foi, também, representada por meio de imagens. Existem, no Centro de Memória do Instituto Biológico, algumas primorosas ilustrações sobre aquela cultura. As imagens (Fig. 1) são de autoria de Joaquim Franco de Toledo, ilustrador científico do IB, que se especializou em belíssimas ilustrações, principalmente, sobre citros.

Assim a cana-de-açúcar teve e tem seu espaço contemplado por aqueles que fazem ciência e pelas mãos daqueles que, com seus facões, curvam-se ao doce mel que invade o nosso Universo.

*Por volta de 1503, surgem as primeiras referências à Casa da Índia, organização portuguesa, criada em Lisboa, com o objetivo de administrar os territórios portugueses além-mar, assim como todos os aspectos do comércio externo, navegação, desembarque e venda de mercadorias.
**Pero de Magalhães Gandavo foi historiador e cronista português, do século XVI, autor da primeira História do Brasil.

Fig. 1 - Ilustração científica de cana-de-açúcar, de autoria de J. F. de Toledo



BIBLIOGRAFIA

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